segunda-feira, 29 de setembro de 2008

De água I







Tão fácil quanto amá-lo assim, distante
É enviar-te versos de um amor
Que é naturalmente a vida
A fluir num rio que corre em mim
E desaba num rosto que , triste,
Se faz concêntrico como uma rocha
E vertiginoso como o vento
...
Não é fácil.


(27/09/2008)

segunda-feira, 10 de março de 2008

"Seguir comigo mesma? Consigo e sigo. Mas preferia contigo..."

...entre quatro paredes - tradicionais.
O vigor da idade da glória que já nasce morrendo.


Tropical esperança de que será melhor. E será...

Será que o escorrer do tempo, lento, poderia contagiar o palpitar no peito?
Se sim, por favor!

Porque ele soava...


Mais alto que a canção francesa no rádio.
Mais forte que a luz incandescente do abajur.
Já ouvira falar de cenas parecidas.
Possível que fosse uma intertextualidade charmosa.
Mas era a agonia por querer uma história "só sua" que trazia lábios mordidos.
Diariamente, ali, aprendia na pele sobre a vida felina que corria ao redor.
E a pele de mulher, arisca, transpirava por socorro e repulsa.
Repulsa e SOCORRO!
Fera ferida.

Naquela noite de chuva,
lia o fantástico,
comia o moderno,
bebia o clássico,
chorava o básico.


Ponto infeliz!

(Estava frio...).

Mandava os outros pro espaço.
Para onde, no fundo, desejava estar.
E não só.


De nem poucas, nem de muitas, mas de essenciais,
o melhor lugar do mundo é feito de presenças.

(...mas já começa a esquentar.).


(26/02/2008)

A vida é um circo

No maior espetáculo da terra
(Juventude dos homens)
Aconteceu o fantástico encontro de três atrações

Atraídos:

O palhaço sabido
O vidente menino
A atriz feliz


Três num ato
Sob o olhar da exigente platéia
Formaram uma torre
Sobre palavras ternas

Mas só aos malabaristas e acrobatas
Era permitido subir alto
Para a boa mão de Deus tocar

Como na história antiga
A torre ruiu (a casa caiu)
E na mesma língua ninguém mais conseguia falar

Aí, a coisa ficou confusa
Palavras, canções e poemas já não tinham finalidade alguma

Que perdição, desventura!

O palhaço, desamparado, se foi para a Lua
(Já que não havia palavras, foi-se para diante da qual qualquer palavra parece ser bruta).

O vidente
Que do futuro nunca soube nada
Leu o próprio destino nas cartas
E do nada, viu a mãe pela greta
Chorando, atravessou o oceano de carona no rabo d’um cometa

A atriz
Muito fajuta
Mas ainda assim, uma boa aprendiz
Não precisou fingir estar triste
(Deixou as lágrimas de crocodilo para o espetáculo da velhice)
Voltou às origens
Ao lar doce lar
Foi revisar algumas lições, valores
E reaprendeu a voar
(O céu tinha toda a força da arte de que ela precisava para voltar a sorrir)

Cada um para um canto diferente
Voaram eles, ela, palavras

Mas o maior espetáculo foi este, então
Ver os perdidos se encontrarem na tão falada solidão


(25/02/2008)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Eis aqui minhas muralhas;
Elas vibram à tua chegada.
Venha!
Minhas mãos anseiam ser pentes para teus cabelos!

Deleita-te em minhas águas frescas,
Beba-me e eternamente nutrirei teu corpo e espírito.

Como ter saudade do que é belo na pátria distante
Se só tua tez morena tem o cheiro e gosto da fortaleza em mim?
Meu berço és tu!

Assim como o sertanejo,
Endurecido pela cidade,
Geme com as cordas da viola,
Sou eu, que balança com o som da tua voz
E do meu peito, sertão cheio de veredas,
Fluem rios de vida,
Saltam os peixes,
Cantam as aves,
Em louvor ao amor!

Ah, se viesses e me tocasses com teus cílios...
Seria suficientemente magnífico!
Teus olhos me cobrem
E nos meus pés um terremoto lança meu mundo ao pó.
Os teus pés...
Lavo-os com unguentos sagrados,
Amarro mexas de cabelos meus em teus tornozelos;
Assim te seguiria,
E seguirias tu a mim.

Sonhas comigo,
E te cubro com as palavras da verdade universal
E com beijos que já são mais teus que tua própria alma!

Juro,
Não terás mais frio!
Faço do teu inverno triste a primavera
Aqueço-te com cobertores de flores raras
E te dou minhas carnes como travesseiro!

Oh, perdoem-me os leitores do acaso,
Que esses versos têm um dono
E dominam-me por inteira!
São moldados pela complacente mão da escrava,
Mas são posses do senhor do meu sono,
Dos meus dias clandestinos,
Do meu amor.


(Lisboa, 10/01/2008 )

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Da Lama ao caos (ficção ociosa pós-moderna e neo-acadêmica)

Ela o viu primeiramente, mas disfarçou.
Ele a viu logo em seguida:

- Hei! Você? O que está fazendo aqui? ; Com tom de desprezo.
- No momento, parada, sozinha e infelizmente olhando pra sua cara... ; Com tom de impaciente desdém.
- Nossa! Jura?
- Não. Não preciso jurar.
- Sua resposta foi idiota.
- Culpe sua pergunta e não a mim.

Silêncio inquietante entre os dois, embora cercados por conversas e risadas paralelas:

- Tenho mesmo que ouvir essas ironias de sempre?
- Nem sempre sou irônico. Senta aqui com a gente?! seria um prazer...
- Verdade. Você é em muitas ocasiões direto, sincero; sinceramente um idiota! Sento não. Obrigada.
- Por nada. E idiota é quem faz idiotices.
- Conclusão genial, Forrest Gump. Embora pouco original. E por nada mesmo. Agradeci por hábito e não por lisonja.
- Só estou te provocando...
- Provocando náuseas!

A atenção de algumas pessoas, curiosas, se volta para o diálogo.
Ela continua de pé esperando uma mesa enquanto ele a observa:

- E por que é que você está toda tampada, aí, com essa roupa? Ficou mais gorda ainda.
- Estou com frio, posso? E emagreço quando quiser, se quiser...
- Sentir frio? Pode. Eu deixo. Você toda tampada está parecendo uma crente.
- Não perguntei se posso sentir frio, bobinho, mas me aquecer. E não me importo em estar parecida com uma crente, até porque eu sou.
- Crente da bunda quente.
- Bunda quente é você que é doido para ser gay e não tem coragem de assumir.

Entre os amigos dele, testas se franzem e olhares se cruzam com horror:

- Acabou?
- Espero que sim.
- Então, ótimo! Garçom, a conta! ; Grita ele.

Ela sorri pelo fim do diálogo e pela mesa, ao lado da dele, acabar de ter sido desocupada:

- Garçom, me vê o cardápio?! Porque odeio o Kieber da mesa ao lado.




(21/06/2007)

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Manga e o conhecimento do bem e do mal



Minha mãe sempre dizia que o fruto proibido, aquele, que o cão serviu à curiosidade da mulher que serviu à ingenuidade do homem, nunca houve de ser uma maça...



Sou amarela
Um amarelo assim
Oculto
Em culto


Uma casca disfarça
Não meu nascimento; cada vez mais longe
Não minha assonância; tremor na voz do desejo
Não! minha tristeza em meio às folhas secas

Sim meu vendaval; mistura as nuanças
Sim minha vaidade; tudo é esse sopro
Sim! minha perversão em meio às frases sacras

A cor...
Amarelo é inteligência
Pensamento, luz
A-cor-do (pecado)
É ouro, reluz
Um azedo, doce, forte
Mas que, nobre, enrubece

E de maduro, cai
Pudor
Amarelo é Manga

(21/06/2007)

segunda-feira, 11 de junho de 2007


Incrível como é simples, linda e totalmente ela. No mesmo momento em que tudo era o nada, o nada parado, houve o instante em que a vi. Viram-na. E só havia isso; caminhava por entre as mesas até onde eu perdidamente me encontrava. Azul e branco nunca fizeram tanto sentido na minha existência multicolorida. E essa paz azul que balançava como o mar ao vento carrega uma vela secreta e acesa no peito. A nuvem negra que sempre traz nos olhos não disfarça tal chama. Nem mesmo a chuva fria que escorre por eles até as pontas dos seus dedos não conseguia (e jamais conseguirá!) apagá-la.

(05/06/2007)