quinta-feira, 30 de abril de 2015

O tempo para no mar e corre na areia

     Ele riu muito, sem parar, como naqueles momentos de embriaguez em que se ri à toa porque parece ser a única coisa possível de se fazer. Embriaguez não necessariamente causada por uma bebida, mas por alguma ocasião que expõe o corpo ou a mente a um extremo e cuja solução se dá quando o cansaço sucumbe ao riso frouxo...
     Era sim uma tarde extrema de domingo; fazia um calor daqueles! Mesmo em minha casa, tão cotidianamente escura e fria, parecia impossível permanecer imune à temperatura do dia que mais parecia um castigo. Não só o ventilador, também o desconforto acompanhava-me onde quer que estivesse, fosse no quarto escuro e fechado contando que o confinamento formasse uma barreira física ao bafo quente de fora, fosse na varanda, sentada sobre o piso frio de cerâmica, esperançosa de que surgisse ao menos uma brisa, a qual me faria sorrir brevemente de gratidão.
     Eram mais ou menos quatro horas da tarde quando não aguentei e saí em busca de um remédio para as minhas ardências: um picolé! Fui até a farmácia mais próxima, comprei um picolé e o chupei ali mesmo, bem devagar. Em seguida, comprei outro picolé na tentativa de estender a sensação de frescor até o retorno à casa. Bobagem, pois sabia desde o início se tratar de uma humilde saída, de um breve consolo por não poder, nem me lembro por quê, ir à praia dar um mergulho, como fez o menino naquela tarde de fogo do cão.
     Na verdade, menino nem tão menino assim: Aos quatorze anos já tinha quatro namoradas no histórico. Era inteligente e até bonito para a idade, apesar do aparelho nos dentes. Seus olhos estavam sempre levemente marejados, mas acompanhavam um sorriso de criança que só desaparecia às vezes, quando ele, parado, sentado em sua carteira, olhava fixamente para o nada, e seus olhos, nesta hora ainda mais brilhantes, atravessavam as paredes das salas e os corredores, desciam pelas escadas e alcançavam as ruas, fluindo pelo asfalto em seu skate tipo long board. Ou pelo menos foi o que eu supus algumas vezes.
     Falando no skate, devo dizer que naquela tarde quente, dois amigos da escola passaram na casa do menino chamando-o para andar de long na praia. Sua mãe não o deixou ir. Bom, não deixou que ele fosse até a praia. Podia ficar por ali, andando pelo bairro e, convencido pelo calor mais do que pelos amigos, foram eles, à revelia da mãe, cumprir o plano original.
     Enquanto atravessava os bairros até a orla e mesmo durante as andanças pelo calçadão, o menino usava um boné virado para trás de dentro do qual escorria o suor que molhava sua camisa. O boné protegia apenas metade da testa e deixou uma estranha e risível marca de bronzeado no menino.
     Depois de tanto deslizarem naquele movimento ondulatório, no mesmo instante em que eu saíra de casa para comprar meu picolé, resolveram descansar. Atiraram-se na areia da praia, bem próximos ao mar. Era, provavelmente, um dos pontos mais frescos da cidade. O lugar também era muito bonito; bem na direção dos meninos havia uma ilhota ao fundo. O verde da ilha se destacava no horizonte azul que, de tão azul o céu naquele dia, fazia com que o mar e o céu se fundissem. Na verdade, a linha do horizonte era feita apenas pelos navios distantes. Será que foi isso que o fez rir? Ele riu muito, sem parar, como naqueles momentos de embriaguez em que se ri à toa porque parece ser a única coisa possível de se fazer. Embriaguez não necessariamente causada por uma bebida, mas por alguma ocasião que expõe o corpo ou a mente a um extremo e cuja solução se dá apenas quando o cansaço sucumbe ao riso frouxo. Ou, neste caso, sucumbiu também a um irresistível mergulho no mar.
     Que delícia seria estar eu lá, ao invés de aqui, chupando este efêmero picolé. Imagino o prazer do menino no mar, com aquele frescor se espalhando e gelando todo o seu corpo.
     Ele riu de tudo, certo de que cada coisa estava em seu devido lugar. E era aquele o seu lugar? Batendo braços e pernas, meio franzino e desajeitado, com a coragem de um passarinho que ainda filhotinho pula da árvore para aprender a voar? Será que em algum momento se lembrou das ordens da mãe? Ou será que a água resfriou qualquer lembrança de suas obrigações de menino? Talvez não. Só sei que ele sempre se arriscava indo para as provas bimestrais sem ao menos saber que matérias cairiam nelas. Não porque fosse mal aluno, ao contrário, mas porque, além de otimista e destemido, acreditava muito em si mesmo. Todos acreditavam. Pra falar a verdade, o vento sempre soprava a seu favor e, assim, sua boa sorte era sempre esperada.
     No que pensava o menino sortudo eu não sei. Sei que, dentro do mar, o tempo para por vontade. É isto o que acontece: quem o adentra, entregando-se a submersão, na verdade, se recusa a pensar no que deixou lá fora, nega seu passado. Quer nascer de novo, convertido. Por isso se sai dele renovado, purificado pelo batismo.
     Os dois amigos do menino, apenas após alguns minutos ali - já que dentro da água o tempo parece ser incalculável -, resolveram voltar para a areia. Apesar do menino ter ameaçado seguir os amigos, logo hesitou e permaneceu na água. O tempo para no mar e corre na areia. Ele sabia.
     E o menino pisou no nada. No nada profundo...
     Era um praia linda, mas não pura obra da natureza; sofrera tantas interferências ao longo dos anos que sua morfodinâmica, agora alterada, tornara-se imprevisível. O que se sabe é que apresenta, com frequência, muitos bancos de areia, os quais formam buracos enormes no mar. Pode-se estar, por exemplo, com a água no umbigo e, à distância de um passo, cair num desses buracos com metros e metros de profundidade.    
    Desesperado, gritava por socorro. Os amigos se prontificaram a ajudá-lo, já que estava perto, praticamente na beira. Estendiam os braços tentando segurá-lo, apesar de saberem que não eram bons nadadores. E havia o medo de também caírem no buraco, afinal, os amigos do menino também eram meninos.
     Imediatamente resolveram voltar para a areia e pedir ajuda. Embora fizesse muito calor, a praia estava vazia e creio que foi a braveza do mar ao entardecer que espantou seus banhistas. Correram  para chamar um salva-vida e realmente havia um pela orla, mas este estava longe, longe.
     O tempo corre na areia. Correram muito até alcançar o salva-vida e correram de volta, os três, juntos, até alcançarem o amigo. O tempo para no mar. O corpo do menino, agora virado para baixo, boiava.
     Enquanto eu terminava meu picolé que derretia rapidamente, bem devagar, trazido pela marola como um pacote frágil, o menino foi depositado na areia.
    


(30/04/2015)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Cover da canção "You can never hold back spring", do lindo álbum "Orphans - Brawlers, Bawlers and Bastards". de Tom Waits. Produzido por Rodolfo.

https://www.youtube.com/watch?v=7CfQGbzJ8Ec

domingo, 19 de abril de 2015

As duas margens de um rio

"Do que estamos falando quando falamos de amor?"
Raymond Carver



     Ninguém é falso pela manhã. Por isso mesmo ninguém é são.
     Contrariando os esforços de se ter um encontro do acaso que parecesse espontâneo e alegre e sentados num café às seis da manhã, ela pergunta para ele, emendando conversas antigas:
     - Você fala de nós, mas consegue nos ver daqui a dez anos? Quero dizer, faz dez anos desde que te vi pela primeira vez e, veja que loucura - disse isso apontando e olhando ao redor como se mostrasse algo, mas só tentava desviar um pouco o olhar do dele - cá estamos nós: os mesmos e tão diferentes...diferentes de quem éramos. Diferentes um do outro.
     - Mas isso não faz sentido - disse ele.
     - O quê?
     - Nos imaginarmos no futuro.
     - Por que não?
     - Porque isso não importa! Veja, eu te vejo agora, sinto sua pele agora e você não é capaz de fingir, eu sei o que se passa aí. Olha, nós decidimos agora o que fazer agora. Sempre foi assim.
     - Decidimos o nosso futuro...
     - Não!
     - Não? Como não? Há dez anos, quando não fui ao seu encontro naquela tarde, sabia perfeitamente que estava decidindo o meu futuro com você.
     Ele abaixou a cabeça, balançando-a em negação. Singelo sinal de revolta. Não disseram mais nada por uns instantes, como se discutir não valesse à  pena; a presença bastava (?). Como se os dois estivessem certos daquilo que defendem, sabendo também que estariam errados em jogar no outro qualquer responsabilidade por estarem ali, naquele café, conversando o inconversável. Do que eles sabem, afinal? Como poderiam saber o que é melhor do que o que se tem?
     Lá estão eles, dez anos depois. Depois de todas as palavras; as sublimes, as ditas e disfarçadas de desamor, as não ditas. Todas, escoadas rio abaixo. Agora, quando já não há mais nada a ser feito e tudo está como deveria estar: ela e ele, ali, olhando-se como na primeira vez. Cúmplices separados nas duas margens de um rio, agora, fundo, fundo. Rio que é silêncio em roda d'água fabricando o tempo.
     O que eles sabem do rio que se transformou é que ainda parte do mesmo lugar.
     E a sede será sempre sede. 

(19/04/2015)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Tentativa de Cordel

Agora com mais linhas
Te dedico este cordel
Sobre a sua vida e a minha
Neste grande carrossel
Sobre o amor, mesmo que simples
Que vivemos dia-a-dia
Com tudo o que é amargo
E é doce como o mel
O amor, coisinha linda
Que em mim é o maior do mundo
Ele cai, mas se levanta
Com você ele pode tudo!
...


(2011)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Nós e o céu

Olhamos o céu
sem temê-lo.
Olhamos, e olhando
dele tiramos tudo:
buscamos o que um dia fomos
e o que seremos
Se voamos (e voamos!)
e se brotamos antes de nascermos...

Olhando para o céu
descobrimos a Terra.

...
Um dia
Nós, humanos
Olhamos para o céu como se fosse nossa mera criação.
De fato, criamos muitas verdades aladas:
Inventamos que este céu gira em torno de nosso chão
Mas era tolice, ilusão!
pois nem o vento, que nos toca
segue nossa direção.

Olhamos para o céu
Nós, tão pequenos
pequenos humanos
Olhamos a imensidão sem temê-la e
tantas vezes, sem amá-la
Dela tiramos tanto, tiramos tudo
Mas não aprendemos nada.

Dias difíceis

Ali
Ninguém se reconhece
Ninguém se fala
Ninguém se ouve
Não há alguém com razão
Capaz de assumir que lhe falta razão

Alguém está certo
Sou eu?
Alguém está certo
Sou eu?
Sou eu!
Sou eu?
Sou eu!
Sou eu?

Não se reconhecem
As faces do amor
Nos dias difíceis.

...

Mas como encontrar
novamente o amor?

Ao olhar-se no espelho
E se reconhecer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O gato

No dia em que o deixei
Deixei uma Alma
A minha, que é a dele
E isto que restou se lembra bem
Dói não sentir mais
O peso do seu piscar, nem a leveza
Do silêncio, da redoma de brisa
Nas janelas aos domingos
Eu em uma, ele em outra
Nos vendo e só
Às vezes nos tocando
Eu sabia ser eu
Porque ele sabia (ele tudo sabia)
E se me lembro aqui
Me perco na falta de seus
Pêlos sufocantes
Ele, lá, não se lembra
Seus olhos nada dizem da memória
Dizem só do mistério de viver por
Instinto
Que quer dizer
Na verdade
Que tudo é simples
Tudo é seu
Lá fora, tem sereno
Mas ele ainda deita onde quer
Ainda vai aonde quer
Por isso, vê e diz o que quer
Dom
Seu espírito livre
Revelou-me
E é o dom
De que preciso.


(02-11-2011)

sábado, 1 de outubro de 2011

Depois que ganhei uma bicicleta e comecei a perceber trepidações, a entrar em caminhos desconhecidos por mim, no desafio de me encontrar dentro de um espaço sozinha, sem GPS, sem rumo, a pedalar por pedalar até o corpo cansar, ver o verde e o cimento se misturarem (e ver o mato vencer, muitas vezes, o sufoco do cinza no chão), ver o barulho e o silêncio que vivem lado a lado, em ruas perpendiculares, só aí percebi que minhas pernas cambotas são boas, são fortes e mais espertas do que eu imaginava: elas me ensinam que curvar é possível e é possível chegar lá naquele lugar de nome diferente do daqui. Porque as únicas linhas que existem no chão marcando caminhos, delimitando o que é ou não um lugar para mim, são as que as minhas rodas deixam ou irão deixar...

(30-09-2011)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O segredo de vida do peixinho azul

De corpo
Azul-marinho
Assim o esperto peixinho
Engana direitinho
O enorme e cinza tubarão

O peixinho azul
Aprendeu a discrição
Conversando
Com o silêncio do fundo
Do mar
e suas estrelas sem brilho.

(15-09-2011)

Busca a bússola

Na bravura de existir

Aprendo a transcender
Recolhendo-me a mim
À medida que descubro
Não sem dúvida pois
Que sem ela nada do que é seria,
O que é, enfim, a felicidade.

Feliz aquele que encontra o que procura!
(Quanto maior a busca, maior se torna o achado.)
Não consigo conceber
Eu,
Com minha finita
Capacidade de realizar,
O maior acontecimento
Deste sopro que chamamos
Vida:

Não o nascer
Não o morrer
A plenitude terrena não é a Verdade
Mas sim as possibilidades de busca por Ela
Como a poesia
Que não é liberdade, desprendimento
Nem é conhecimento adquirido
Mas ambos; é tudo isso e nada disso
Porque cada espírito é recluso, único em si
E é universal
E nisso não há lógica, nem Norte, nem palavra
Que possa definir...

...Como não há no amor
E em nada que possamos imaginar.

(02-08-2011)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Humanidade em risco (ou profecia do rabisco)

Entre uma palavra e outra
um risco à mão
Rabiscos
de um sonhar acordado
corriqueiro e ansioso...

É contradição, o desejo de pular etapas bloqueando-as? É?

Margens prontas de cadernos
atravancam minha mente
inquietam meu coração
como as pedras de Drummond

Rabiscos:
revelam minha arte
que não tem nem a capacidade
de ser inútil
Dá fuga, ao tempo
desta prisão bio-cotidiana
de ilusão
(de) felicidade,
poder de compra,
controle das situações.

Benditas linhas de viajar
que me permitem errar e ser humana:
o ponto de fuga é o meu destino!

Mas o que é o mundo senão linhas
tortuosas e imaginárias?


(07-07-2011)

domingo, 5 de dezembro de 2010

A morte e o chimarrão

     Diferente de muitos com quem dividi algumas experiências intelectuais, principalmente no meio universitário, nunca fui dotada de esperteza extra ou inteligência nata, intuitiva. Estudo línguas, mas não tenho a felicidade de decifrá-las sem a boa e velha ajuda de gramáticas, dicionários, exercícios e repetições. Nem minha língua, o órgão mesmo, se entrega facilmente a novas articulações. A mecânica da fala de uma nova língua me é tão desafiadora quanto fora a mecânica do primeiro beijo.
     Como uma criança dita "normal", aprendi a ler na escola de alfabetização, e fui aprendendo, passo a passo, em consonância com o que me era ensinado. Já no quesito criatividade, não consigo, agora, estabelecer um padrão de normalidade, ou intensidade criativa. Creio que qualquer pessoa já é um tanto criativa em seus próprios pensamentos. Basta um dos cinco sentidos para haver percepções únicas. Mas quanto a isso, também posso estar enganada. Pelas minhas memórias, percebo que sempre fui muito mais sensível do que criativa. Até hoje, tenho certeza de que minhas visões sobrenaturais, sonhos e intuições da infância fazem parte de um contexto maior, e por mais maluquices que pareçam ser, são reais e não frutos da minha imaginação, mas sim, de uma sensibilidade para perceber o invisível.
     Eu tinha cinco anos, uma sonseira crônica e muitas perguntas a fazer. Era meu primeiro ano escolar e acordava cedinho todos os dias para ir à escola que ficava a duas quadras do condomínio onde morava em Itapuã, Vila Velha. Acompanhada por minha mãe, descia o prédio com mochilinha nas costas, lancheira na mão e muita vontade de aprender a ler de verdade, porque de mentirinha eu já lia há algum tempo.
Quando descíamos o prédio, ao passar pela portaria, sempre nos encontrávamos com um homem. Alto, bonito, de trinta e poucos. Na verdade, ele era só um tiozinho, uma pai de uma amiguinha. Ele não falava muito e nem lembro o nome dele (não lembro nem o da amiguinha), mas lembro, com riqueza de detalhes, o fato de que, todos os dias, ele estava ali, sentado na escada tomando chimarrão, com uma cara de satisfação e reserva como se aquilo fosse seu grande luxo, seu grande momento do dia.
     Um dia acordei e minha mãe me deu uma notícia "O pai da ... morreu. Houve um acidente de moto, ele estava de carona...a roda da moto ficou presa num bueiro...ele voou e quebrou o pescoço...".
     Chocante, cena forte, já ouvira falar de morte, mas foi a primeira vez que vi alguém pertinho de mim morrendo. Na minha pouca experiência, pensei que a morte podia ser qualquer coisa. Mas as caras de tristeza se fizeram mais que suficientes para me provar que morrer não era bacana. Afinal, ele 'quebrou o pescoço' e entendi, sem esforço, que isso doeu bastante.
     Minha mãe me levou ao velório, vi o corpo deitado e pessoas chorando. A filhinha não estava, e parece que contaram para ela uma história de "virar estrelinha...", bem diferente daquela que minha mãe me contou.
     Até aí, tudo bem. Ou melhor, tudo mal. Ele voou, caiu, quebrou o pescoço e morreu.
     Mas o que vinha depois?...
A vida continuou, continuei acordando cedinho, com a mesma sede de aprender sempre mais na escola que eu tanto amava. Porém, na medida que os dias passavam, minha aceitação foi virando estranheza que, por sua vez, foi se transformando em incômodo e assim, em angústia; tudo devido à ausência daquele homem sentado na escada.
     E foi assim que entendi, cedendo à força dos fatos, a primeira questão sobre morte: morrer é não poder mais aproveitar uma manhã, e reservá-la só para tomar chimarrão.

(05-12-2010)

domingo, 14 de novembro de 2010

Ninguém pinta como eu pinto.


Visão termoplasmática



Técnica: Lápis Aquarela
Esboço:Rodolfo Alexandre
Colorização: Lis Motta
(Aprendendo um pouquinho...).

domingo, 6 de junho de 2010

A pedido, a letra da música "Passos Lentos" de Conrado Segal

Eu não tenho tempo de caminhar a passos lentos
Por isso eu corro, eu corro
Tenho todo o tempo do mundo
Mas o mundo é pouco
Ouço a voz do vento me dizendo sem ressentimento
A vida é um sopro

Eu dançei no contratempo para capturar o momento
Me escapou por entre os dedos, tão pequeno
Quis fazê-lo eterno

Mesmo já sabendo que o tempo faz um movimento de esquiva
Mesmo já sabendo que ao mesmo tempo o meu corpo e o seu não podem ocupar o mesmo espaço

E não tendo tempo pra ensaio
Eu vou improvisando
Nesta peça de teatro
Neste palco de área limitada que a nós foi dado
Com hora marcada

E não tendo tempo pra dizer mais nada
Eu vou pegando a estrada
Vou saindo fora
Vou-me embora
Já passou da hora de eu correr atrás do tempo

Eu não tenho tempo...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

LIS E A ERA BRILUZ - FESTIVAL PRATO DA CASA

Minha banda está concorrendo no festival Prato da Casa.

Votem até sexta-feira pelo telefone 3335 7914 (de 12-14 h) no programa Bandejão, da rádio universitária 104.7 FM e pelo site www.crjvitoria.com.br(barra)pratodacasa


Votem aí! Obrigada!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

SOBRE TUDO QUANTO SE LÊ

Livros, amigos, ou uma coisa qualquer.
Um bicho bonito, um gato a dormir
uma lagartixa que arregala os olhos do menino.
Tudo pode ser lido.
Tudo pode ser vivo com este louco DNA
das palavras e suas letrinhas miudinhas
ou GRANDONAS ASSIM que se organizam
de múltiplas, infinitas formas
de acordo com o que (se) quer incorporar.

O que mais leio, naturalmente, sou eu mesma.
Gosto também de ler aquele que tanto amo,
meu lobo manso
e é tão difícil,
e dá uma dor gostosinha esse árduo ofício
de cultivar um amor culto, letrado.
Ler em minha mãe
seus olhos cansados dos sessenta também é bom e
confortante na maior parte do tempo porque
afinal, tá tudo bem.
Ler os mortos pode parecer estranho
mas estranhamente é o que mais se lê
e eu também gosto e parece que
quanto mais frio ou esfarelado o corpo
mais quente e sólido seu vocabulário.

Bukowski, Whitman, Jorge Luis Borges
E.E. Cummings, Kundera, Conrado (o Segal)
Hilda Hilst, Machado (Isadora e de Assis)
Exupéry est super como as pessoas do Pessoa
Guimarães (linda rosa) e Cezário, não o verde, o Saiter.
O Gênesis, o Mateus, o Marcos, o Lucas, o João
e seu apocalipse.
Tanta coisa a se ler neste circo universal, caro Raimundo...
Tanta coisa, caro Manuel, minha bandeira nacional!
(licença, Leminski, pelo trocadilho...licença a este corpo jovem, Breno Dantas).

Tá, mas...quem é que está morto mesmo?

Vivas! todos vivem!
Até o diabo
até os Carlos com suas bebedeiras tristes e
seus rios rasos
Até Rimbaud vibra constante em sua estadia
no inferno

Vivas! todos vivem
em nossos olhos
se quisermos.

Ler abre portas para o eterno.


(21-04-2010)

terça-feira, 13 de abril de 2010

amor habitat

Para Rodolfo


Não se engane com o que vê, amor
entre os lençóis e as vassouras.
Cotidiana, fui domesticada, não nego
mas há vida em mim. Há vida!
Simples e vaga
mas acesa de sentidos:
Há o cheiro do pão, do feijão e do mar
(e quão delicados eles são...).
Há um ruído de bicho, de mato, que me soa estranho
e um de rio, de cascata, que me soa como um lindo sonho.
Há minha mãe, minha destra
e há ainda minha mão
sinistra, unida ao Selvagem.
Você; meu pássaro livre
policromático
que me conta, em altos voos
a fantasia de cantos e cores reais
a realidade de cheiros e gostos fantásticos
e me ensina muitas outras coisas
sobre a arte da espontaneidade.
Oh, meu pássaro-amor...
Tá na mesa
Vem comer, vem?
Celebremos a maravilha deste voo juntos
Mas celebremos também o chão, a gravidade
Pois são eles que nos fazem sentir tão agraciados em poder voar.

(13-04-2010)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Naquela noite de domingo em que falou
Sobre ser uma unidade novamente
E sobre como se sentia estranho comigo
Eu morri
Sem exageros, morri
Morri porque, estranhamente, o que te dava medo
Era o que sempre, eu e você, mais amamos em nós:
Essa mistura de estranheza com intensidade
Que todos notam, se escandalizam;
Dois ímpares, canhotos, opostos, compartilhando escolhas terrenas com afeto e alegria
Morri porque não acreditei no desamor
Em você assobiando na cozinha, lavando vasilhas
Enquanto eu definhava no sofá
Engasgando amor-próprio, memórias e MUITA RAIVA
Morri, nem te reconheci; você anunciando boas novas do acaso
Em primeira do plural
Calmamente...
E eu, sua, nula, puta, plena, dizendo: "sei o que quero."
Eu realmente queria sobreviver, e talvez a boa nova é que o acaso permitiu
Enfiaram-me num banho frio, conversaram comigo, alimentaram-me.
Providencial...
Obviamente outras noites vieram. E com chuvas desnecessariamente românticas
A lua passou, o sangue passou, a depressão, mas você não
E voltou;
Graças a Deus!...
Como sempre volta o dia ensolarado à Itapuã. Como sempre voltam os dias de entendimento
Mas naquela primeira noite de lua cheia de peixes,
"Ó Grande Virgem!",
Você não passava de um pequenino perdido
Que eu estava prestes a engolir.

(07/03/2010)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Para Rodolfo

Está sempre de olho
O preciso rapaz:
Tranquilo e sagaz
Em questões do avesso
Canhoto sem pressa
Junta os caquinhos
Gosta de um mistério
E vai com calma à conclusão
Olhos que sempre
Vêem bem
Além do posto
Recebe sinais das estrelas
E é amigo do vento
No rosto
Corado
Docemente abrutalhado
Pedaladas ao sol
Terça ou quinta
Ele é ímpar!
Vai e nunca dá tchau
Mas por aqui sempre fica:
Eu de olho nele de olho...